domingo, 19 de setembro de 2010

Seminário Brasil, Brasis: Telenovela e Literatura

No final de agosto, estive na Academia Brasileira de Letras, no Rio, para assistir ao Seminário Brasil: Brasis. O assunto do dia era "Telenovelas, séries televisivas e literaturas" e a mesa composta por um time de primeira: A repórter do jornal O Dia Regina Ritto, o Doutor em sociologia da informação e Professor da UFRJ, Muniz Sodré, o diretor da Rede Record, Ignácio Coqueiro, o ator José Wilker e os novelistas da Rede Globo, Gilberto Braga e Walcyr Carrasco, com a mediação do escritor Domenico Proença.
Regina Ritto abriu o seminário fazendo uma comparação entre o trabalho do repórter televisivo nos anos 80 - quando iniciou sua carreira – e nos tempos atuais. Ela, que já foi colunista e chefe de Redação das Revistas Contigo! e Manchete e roteirista do Domingão do Faustão e do Vídeo Show, comentou que antigamente era mais fácil conseguir acesso direto aos artistas e matérias exclusivas, já que não era comum a figura dos assessores, tampouco redes sociais e paparazzos. Mas hoje é preciso correr muito atrás de um furo para conseguir a melhor matéria. Sobre telenovelas afirmou que refletem a tendência de sua época desde os anos 70, quando deixaram de lado os dramas cubanos e nacionalizaram-se e que, embora, não sejam literatura, tornaram acessível ao grande público clássicos com que jamais teriam contato se não fosse através da televisão, como por exemplo, Helena e Escrava Isaura, dentre outros. Esta afirmação de Regina, classificada por Domenico como polêmica, de certa forma deu o norte do debate e conduziu o resto da discussão.
Para o Professor Muniz Sodré telenovela é literatura sim, mas, de outro tipo. As mesmas marcas tradicionais da literatura são trabalhadas nas telenovelas, isto é, as condições humanas que a ferrugem do tempo não corrói: o medo, a traição... A narrativa se faz presente nos dois casos, sendo que o romance foi incorporado à escola e as novelas a esfera do consumo. Sodré acredita que há uma semiose entre literatura e teledramaturgia, sendo que a segunda tem mais a ver com a forma do que com o conteúdo. Em sua opinião, o fato de não existir critica literária para telenovelas é o que faz com que se diga que não é literatura, como se a obra precisasse passar pelo crivo desta critica para adquirir tal status. Acha, porém, inútil discussões sobre o que é o artistico no artistico. Ele definiu telenovela como “a narrativa folhetinesca tecnicamente iluminada”, isto é, como a transposição dos antigos folhetins para o meio eletrônico, floreada pelas novas tecnologias. Disse que as telenovelas fazem uso de realidades míticas e do real histórico e exemplificou com o fato de que todas as novelas de fazenda tem algo de Gilberto Freyre e um leve tom de incesto. Para o professor, a novela é um pastiche de outros tipos de narrativas já feitas e isto não é algo negativo. Uma história bem contada tem futuro. A sutileza do texto intervém na forma e vai direto à consciência, seduz o leitor/espectador. Ele falou ainda que determinados textos de teledramaturgia, sobretudo os de comédia tem esta sutileza e citou como exemplo alguns diálogos da atual novela das 19hs da Rede Globo, Ti-ti-ti. Sodré afirmou que entretenimento é sedução e que após meio-século, a novela continua seduzindo o público através do romance, pois o que o público atual quer é o mesmo que queria o leitor dos folhetins do século XVI: divertir-se e entreter-se.
Á seguir foi à vez de Ignácio Coqueiro, que foi bastante breve e preferiu tentar responder a pergunta “Onde a telenovela vai parar?” O diretor acredita que o futuro do gênero é tornar-se interativo, juntar o internauta com o homem que está na rua e assiste no celular e o que está em casa assistindo TV. Acha que é hora de pensar nas novas tecnologias. Ignácio imagina um futuro onde cada um de nós possa seguir cinco ou seis personagens e acompanhar, inclusive, aquelas cenas que sobram e não vão ao ar na TV. Ele acha que chegará a época em que até mesmo jogos serão propostos. Poderá haver uma novela em que o público vai apostar no que vai acontecer e trocar sua pontuação por prêmios. Ainda assim, deixou claro que o público não interferirá no texto, poderá apenas brincar. A responsabilidade da história continuará sendo somente do autor.
Depois, foi a vez de Walcir Carrasco, que retomou o tema telenovela x literatura. Contou que escreveu 35 livros infanto-juvenis e graças a esta sua experiência concluiu que novela pode não ser literatura, mas, dialoga com a literatura. Walcyr revelou que “O cravo e a rosa” foi a novela que mais lhe satisfez e foi toda feita em cima de “A megera domada”, de onde chegou a tirar frases inteiras. Assim como na peça, não existia a figura do vilão, o mote era o embate entre Catarina e Petruchio, os protagonistas. Quando a novela precisou ser esticada, aí sim precisou mexer na obra e criar uma vilã. Ainda assim acha que a novela funcionou porque Shakeaspeare é um autor muito divertido.
Para Walcyr a diferença básica entre o autor literário e o de telenovelas é que o primeiro tem tempo para burilar a sua obra, pode ser mais profundo. Ele disse que a telenovela se alimenta da literatura e do mito e que há personagens que freqüentemente se repetem nas telenovelas, como por exemplo, A Becky, de Feira das Vaidades, romance escrito por William Thackeray em 1.848 e A prima Bete, de Balzac. Citou até a Bíblia para mostrar que as histórias se repetem o tempo todo, só o que muda é a forma de contar. No Gênesis 39, temos a história de José e da mulher de Potifá, que tentou deitar-se com ele e que como foi recusada rasgou suas vestes e acusou-o de tê-la tentado violentar. Ou seja, nos disse Walcyr, no Novo Testamento já havia a mesma vilã que há hoje nas telenovelas.
Para o autor, as telenovelas tem sim uma orientação industrial, mas, tem também um diálogo literário que a supera e os autores com formação cinematográfica e literária tem mais condições de buscar o diálogo como um todo. Walcyr disse que em entrevistas, sempre lhe perguntam se a Globo interfere no andamento da sua obra, mas, que se houvesse alguém na Globo que soubesse o que mudar quando preciso, se ajoelharia aos pés desta pessoa. A responsabilidade recai mesmo somente sobre o autor.
Assim como Coqueiro, ele acha que a telenovela futuramente vai ter que abarcar as novas mídias. Contou que esteve no Japão e viu por lá mini-novelas de 140 caracteres que passam no celular. Acredita que a novela vai mudar sim, mas não sabe ainda como. Logo a seguir foi a vez de Gilberto Braga, que levou a platéia aos risos quando disse que se sente um velhinho ao ouvir Coqueiro e Walcyr falando sobre telenovelas no celular. Fez uma comparação de si mesmo com seu ex-patrão Roberto Marinho, que segundo ele, era um empresário brilhante e acompanhava tudo a sua volta, mas, quando alguém falava de satélites, cochilava, “tirava o time de campo” Gilberto se sente fazendo “parte desta turma”. Deixou claro que não se sente à vontade com novas tecnologias e discordou de Regina e Walcyr. Para ele, telenovela é literatura. Falou sobre as adaptações de obras literárias que já fez e das motivações que teve para cada uma delas. Escolheu Helena para adaptar por se tratar de uma obra do inicio da carreira de Machado de Assis, seu autor preferido, pois não teria coragem de mexer com uma das obras-primas do grande escritor. Já a escolha de “Senhora” de certa forma, deveu-se ao critério contrário. Gilberto disse não ser fanático por José de Alencar, não o acha um autor tão bom quanto Machado, mas dentre os romances deste escritor, Senhora é o seu preferido. Contou ainda que como na época mandaram esticar a história, tomou liberdades que de inicio não pretendia. Já a adaptação de “A Escrava Isaura,” Gilberto contou que foi recomendação de sua ex-professora Eneida (que ele citou mais de uma vez, com carinho, durante sua apresentação). Ele considera o livro mal-escrito, mas, em compensação acha que tem a melhor story-line que já viu, a da escrava desejada pelo seu senhor e que não o quer. Em sua opinião, esta é uma story-line que mexe com qualquer pessoa porque fala do medo. Atribui o sucesso desta novela ao fato de que todos nós temos medo; ele acha que o medo é o sentimento mais forte que o amor e que todos nós temos medo de quem é mais forte. Contou ainda que pediu para assinar “O Primo Basílio”, que acabou sendo uma “adaptação de Gilberto Braga e Leonor Basseres” e disse que vale a pena assistir a obra em DVD porque o texto de Eça de Queiroz parece um roteiro cinematográfico com suspense e força de personagens.
Gilberto concordou com Walcyr sobre a repetição de determinados personagens em telenovelas. Acha Becky Sharp uma ótima personagem e confessou que já pensou em adaptar Feira de Vaidades, mas, desistiu porque não sabe escrever sem maniqueísmo. Precisa saber quem é o mocinho e quem é o vilão, não conseguiria fazer bem uma personagem tão ambígua. Acha que A Prima Bete de Balzac também seria outra boa novela. Lembrou que os sessentistas reescreveram os gregos e utilizavam para isso o termo imitação criadora. Para ele, não vamos achar nenhuma novidade dentro do ser humano, que é o que o atrai. Contou que se esta nesta “brincadeira, ”isto se deve ao interesse que tem pelo humano.
Gilberto terminou lembrando uma de suas personagens mais famosas, Odete Roitman e dando uma dica preciosa para quem pretende se aventurar no ofício das telenovelas: não adianta lançar mão do recurso do “quem matou?” se o personagem não tiver força dramática. No caso de Vale-Tudo, a trama do assassinato durou exatos nove capítulos até o seu desfecho e, no entanto, todos lembram porque Odete era uma personagem forte, por isto o público se interessou em saber quem a matou.
José Wilker encerrou a apresentação, contando que recentemente acompanhou duas telenovelas em Miami cujo plot era “um sujeito queria alguém e alguém o atrapalhava”. Com um humor um pouco sarcástico, arrancou risadas do público em alguns momentos. Disse que a última novela que se lembra de ter acompanhado foi “Nino, o italianinho”, mas, que desistiu ao ver lá pelo capítulo 200, Juca de Oliveira tropeçar na Aracy Balabanian, beijá-la e no capítulo seguinte pedir desculpas.
Wilker disse que resistiu a fazer TV por muito tempo porque a associava a ditadura até que deixou de ser burro (palavras dele) e aceitou o convite do Dias Gomes para fazer novela. Não sabia nada naquela época e perguntou para o diretor: “Como se representa na TV?” tendo recebido como resposta “Não enche o saco, conta até três e faz”. Foi isso que ele fez e, curiosamente, ganhou vários prêmios como ator naquele ano.
O ator contou que viajou muito pelo Brasil fazendo teatro e sentia que o nosso país na verdade eram vários países distantes e separados, mas, agora quando viaja sente que não é mais assim, vê o Brasil como um país inteiro que não vai mais se dividir em 4 e acredita que as novelas tenham contribuído para isso. Apesar disso, acha que a TV está engessada e que estamos sendo presenteados como uma infinidade de meios de comunicação, mas que não são de comunicação na verdade. A mensagem que Wilker quis deixar é de que o grande trabalho de todos nós será o de nos apropriarmos destes novos conhecimentos para torná-los de fato comunicação.

3 comentários:

  1. Gostei muito do seu blog e já te sigo.
    Vai conhecer o meu:
    www.odeliriodabruxa.blogspot.com
    Eu também sou escritora e roteirista e li essa informação que você postou no "Roteiros para TV."
    Beijo
    Denise

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  2. Super legal seu blog , Elaine.

    Te sigo também ...
    Bjo.

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  3. Adorei a história do Jose Wilker! rs
    Bjs!

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