quarta-feira, 13 de abril de 2011

Cinema e Novas Tecnologias

No dia 07 de abril tive a oportunidade de assistir a palestra do Professor Arlindo Machado sobre Cinema e Novas Tecnologias durante a Aula inaugural do Mestrado em Comunicação da UERJ. Arlindo é professor do Programa de Pós Graduação e Semiótica e do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da PUC-SP e autor de livros como “Mídia e Arte” e “A televisão levada a sério”, dentre vários outros.
Ele começou falando sobre a verdadeira luta que Copolla travou para filmar APOCALIPSE NOW, em 1979, no meio da selva das Filipinas, tendo que lidar com guerrilhas locais, doenças que acometiam a equipe e outros transtornos (sem contar o infarto do ator principal, Martin Sheen, bem no meio das filmagens, que obrigou o trabalho a ser temporariamente interrompido). Tudo isto numa época em que tudo a câmera ainda era mecânica e a película semelhante a do século anterior.
Falar das dificuldades que envolveram a realização do filme de Copolla foi o ponto de partida para que Arlindo pudesse abordar o quanto as coisas mudaram de 1979 pra cá com a evolução das novas tecnologias, mas, também o quanto o cinema ainda é conservador e resistente as mudanças em relação ao seu fazer. O professor contou que após o drama que foi filmar Apocalipse Now, Copolla partiu para o extremo oposto. Começou a imaginar um cinema eletrônico, com recursos de inserção de imagem e acabou inventando, de certa forma, a storyboard eletrônica com One From de Heart (Do fundo do Coração), um musical totalmente rodado em estúdio. Ou seja, todo o processo foi “rascunhado” em vídeo, eletronicamente e só depois foram acrescentados os atores e a história. Como é sabido, o filme foi um fracasso comercial e levou Copolla a falência (embora exista muita gente que goste do One from de Heart, são os mistérios do cinema...).
Desde então, surgiram outros filmes utilizando recursos tecnológicos. Arlindo citou Jurassic Park como um exemplo emblemático. Afinal, a única coisa fundamental do filme foram os atores, que filmaram sob um fundo azul. O restante foi produzido em computador. Falou ainda de Final Fantasy, filme japonês, que se originou a partir do videogame e que, embora filmado com computação gráfica, parece ter sido feito com câmeras e atores de verdade. Por sinal, segundo o professor, a indústria do videogame é a que mais se desenvolve dentro do meio audiovisual, vem crescendo mais até do que Hollywood. Hoje, o videogame parece cinema, com roteiros e até mesmo personagens com características psicológicas. O Professor acredita que isto se dá porque enquanto o cinema tenta se resguardar de todas as maneiras, a indústria do videogame aproveita até mesmo a pirataria a seu favor. Quando toma conhecimento de que estão usando seus jogos para elaborar outras coisas, por exemplo, encaram como publicidade e passam eles mesmos a incluir ferramentas para que os usuários possam criar seus próprios filmes a partir dos jogos. Graças a isso, vem surgindo gêneros como o Mashima, que nada mais é do que um subgênero do videogame. Você pega o contexto do jogo e cria um filme.
Arlindo abordou ainda o tema transmídias, tão em voga atualmente. Ele acredita que a tendência é que futuramente os meios se contaminem um com os outros. Deu como exemplo Lost, já que a história aconteceu não apenas na TV, mas também em outras mídias como a Internet. Guardadas as devidas proporções, as palavras do Professor me fizeram lembrar a palestra que assisti com Walcyr Carrasco na ABL, onde ele dizia acreditar que no futuro haverá algum tipo de interatividade nas novelas e que estas poderão ser acompanhadas nos celulares – ou feitas para eles – e por outros meios. Lembrei ainda que em Passione, Sílvio de Abreu colocou na boca de seus personagens textos que só podiam ser vistos no site da novela e que os blogs de Beatrice M e Adriano, de Ti-ti-ti, existiam mesmo fora da trama. Acho que não só o cinema, mas, também a TV está tentando se reinventar com as novas tecnologias.

Uma pergunta interessante lançada por Arlindo foi: “Para onde vai o cinema?”
Questionou até mesmo a forma de ver cinema tal como é hoje, com a plateia sentada e comportada numa sala escura. E mais: Como o cinema pode tornar-se interativo? Como o público pode participar da realização do filme? Afinal, segundo ele, hoje ainda se faz e se assiste cinema tal como na época dos Irmãos Lumiére.
A interatividade no cinema não é algo fácil de ser pensado, até porque a princípio, o cinema é uma experiência coletiva. Mas o professor mostrou alguns vídeos bem interessantes, de cineastas que estão tentando caminhar neste sentido. Em um deles, de um diretor italiano, são propostos vários temas polêmicos e o público é chamado a opinar sobre eles através de votação. Em certo momento o filme para e aparecem na tela perguntas como: Você é a favor do aborto? O público deve responder sim ou não e a partir das respostas o filme seguirá. Quando o filme acaba temos o que Arlindo chamou de “uma espécie de mapa da plateia”.
Segundo ele, da mesma forma como se customiza uma roupa para alguém, hoje, com o auxílio das novas tecnologias, podem ser feitos filmes “customizados” especificamente para uma pessoa. Assistimos então trecho de outro filme muito interessante. Não lembro o nome, mas, trata-se de uma história de suspense onde o final depende das respostas dadas pelo espectador a um questionário. Curiosamente, o filme parece ter sido feito para ser visto individualmente, porque as perguntas são bem intimas. O espectador não sabe como as perguntas dele contribuem para a história, mas há uma lógica embutida, que tem como consequência que diferentes respostas conduzam a diferentes finais. Vimos ainda trecho de um filme de faroeste todo filmado com personagens digitais e uma experiência em que imagens se sobrepõem aos diálogos e são reorganizadas cada vez que revemos o filme. Confesso que para alguém como eu, apaixonada por histórias, este foi o que menos me agradou, mas, reconheço que tem o seu valor.
Arlindo falou bastante sobre certo conservadorismo que ainda paira no cinema em relação ao uso das novas tecnologias. Lembrou de Uma aventura na África, que foi filmado no meio da selva africana, com os atores e a equipe enfrentando desde picada de mosquitos até leões de verdade. Na atualidade, o filme poderia ser feito com os recursos digitais disponíveis, mas, muitos profissionais ainda hoje acreditam que sua obra só tem valor se for fruto de uma vivência real. Arlindo mencionou que isto é algo próprio do cinema e fez uma comparação interessante com outras artes, tal como a pintura e a literatura. Afinal, Dante Alighieri não precisou ir ao inferno para escrever “A Divina Comédia, assim como Kafka nunca esteve em um tribunal e escreveu obras-primas usando apenas sua imaginação. Assim, como pintores fazem belas obras só com a imaginação.
Questionado se no Brasil, há experiências semelhantes as dos filmes que levou para que assistíssemos, citou a exposição sobre cinema e novas tecnologias, que aconteceu recentemente em São Paulo e que apresentou trabalhos interessantes de cineastas brasileiros. Uma pessoa da plateia citou ainda o filme interativo "A Gruta”, de Felipe Gontijo, que passou no último festival do Rio. A plateia recebeu um controle que permitia votar e alterar o rumo da história de acordo com a maioria. Ou seja, o mesmo filme pode tornar-se um novo filme para diferentes públicos.
Diante de tantas novidades, é mesmo de se perguntar: Para onde caminha o cinema? Vamos aguardar para ver.

domingo, 3 de abril de 2011

Rir é o melhor remédio

Semana passada assisti ao Melhores do Ano do Faustão e cheguei a uma conclusão: Concorde-se ou não com os critérios de premiação e com seus resultados, o que ficou claro é que o público quer e precisa rir. Vejamos os ganhadores escolhidos pelo voto popular, começando pelos atores: Cláudia Raia, Irene Ravache, Bruno Gagliasso, Murilo Benício, Clara Tiezzi, Mayana Neiva. O que eles têm em comum? Simples: Todos ganharam fazendo comédia, todos ajudaram a levar humor e descontração ao telespectador no ano de 2010. Passemos para o jornalismo: Sou capaz de apostar que Tiago Leifert levou a melhor não só pela novidade, mas, pelo humor que inseriu à Central da Copa.
Não sei se rir é o melhor remédio, mas, sei que como diz a música cantada por Marisa Monte rir também "aquece a alma e ajuda a viver", seja um simples sorriso ou uma boa gargalhada. Tomara que 2011 ainda nos reserve muitos momentos assim. Nós merecemos.

E por falar em rir...

O Canal Viva vai reprisar Vamp. Eu ainda era criança quando a novela de Calmon passou a primeira vez, mas, não esqueço as gostosas gargalhadas que dei com Natasha, Mary Matoso & Companhia. Gostava tanto que cheguei a colecionar figurinhas dos personagens. Pra mim, Vamp tem um gostinho de doce nostalgia. Que venham novamente os vampiros!

segunda-feira, 21 de março de 2011

Ti-ti-ti vai deixar saudades.

Que delicia foi acompanhar Ti-ti-ti e torcer pelos seus personagens! Fazia muito tempo que eu não me encantava por uma novela das sete. Fazia muito tempo, aliás, que eu não ria tanto com uma obra de ficção. A trama foi capaz de me fazer gargalhar, mas também, em muitos momentos de me emocionar ou de simplesmente de despertar aquele sorriso que brota no rosto quase sem sentirmos diante de uma bela cena de amor ou de amizade. O texto de Maria Adelaide Amaral é um primor e direção e atores ajudaram a lhe dar vida com graça. Para citar só uma personagem, entre tantas, que brilharam, acho que a Jaqueline, de Claudia Raia resumiu bem o espirito da novela, pois transitou bem da comédia mais escrachada às cenas de drama . Hilário vê-la dançando Ilariê. Emocionante vê-la encorajando Thales a assumir o seu amor por outro rapaz. E se houve drama, comédia e romance na medida certa, ainda sobrou espaço para brincar com o gênero musical e dar espaço para que Cláudia mostrasse também os seus dotes de cantora. Lindo vê-la cantar ao lado de Armando Babaioff na despedida de seus personagens. Emocionante vê-la cantar num bar, repleto de mulheres solitárias, quando perdeu seu amado Jacques para Clotilde.
Música, drama, romance, personagens carismáticos e um texto incrível, cheio de poesia e humor... Sem dúvida, a novela deu o maior ti-ti-ti. Já estou morrendo de saudade.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O que vale a pena em 2010, 2011 ou qualquer ano

Uma das coisas legais que a internet permite é conhecer pessoas de todos os cantos, trocar ideias, compartilhar dicas interessantes e este é também um dos objetivos do folhetimblog. Portanto, fiz um pequeno apanhado do que acredito que vale a pena conferir no momento, dicas que daria para meus amigos. Cada uma delas valeria um post, mas, por enquanto vou me contentar com o resumo. Vamos lá

No teatro Tango, Bolero e Chá Chá Chá - Foi graças a essa peça que me apaixonei por Edwin Luisi anos atrás. Que ator! Vê-lo nos palcos é um presente para qualquer público. E a peça, uma delicia, nos faz rir do começo ao fim. Ainda não pude conferir a nova montagem, mas recomendei para várias pessoas e aqueles que me ouviram adoraram. Vale a pena para qualquer um que como eu seja apaixonado por teatro

Além do Arco-íris - Se Edwin Luisi me encantou nos palcos, Luciana Braga chamou minha atenção pela primeira vez, quando eu ainda era adolescente, na novela Tieta. Como torci para que Imaculada conquistasse seu príncipe na época. Esta foi uma novela que me marcou e, Luciana, foi um dos motivos. Desde aquela época quando pensava vagamente em ser roteirista sonhava com ela para estrelar um trabalho meu. E agora, muitos anos depois, tive a oportunidade de vê-la no teatro dando vida ao belíssimo texto de Flavio Marinho, que merecidamente ganhou o Premio Shell. Poesia, lirismo, humor e melancolia. Uma peça que nos leva do riso as lágrimas e das lágrimas ao riso, coisa rara de se ver.

Ti Ti Ti - Que bela homenagem a Cassiano Gabus Mendes. O texto de Maria Adelaide Amaral e colaboradores é inspiradíssimo, como a muito tempo eu não via numa novela das dezenove horas. Além disso, nada destoa: Direção, elenco, produção. Há muito tempo não ria tanto com uma novela. A parte dramática, composta pelo núcleo de Marcela e companhia, também não destoa, pelo contrário tem um texto belíssimo.

500 dias com ela - vale o aluguel do DVD. Logo no inicio somos avisados de que se trata da história de um rapaz que conhece uma garota, mas que não se trata de uma história de amor. E a partir daí somos convidados a acompanhar e a nos deliciar com a história da pragmática Summer e do romântico Tom.

Clandestinos - Quis ver a peça, mas, acabei não conseguindo. Mas a série de TV me fez torcer para que volte logo aos palcos a história "desses moços e moças que sonham ser artista nesta cidade".

Enfim, estes foram alguns dos programas que ajudaram a tornar meu ano de 2010 mais divertido e, que espero o de vocês também. Alguns ainda permanecerão em cartaz no ano que virá e ajudarão a fazer valer os meus votos de um 2011 mais alegre, divertido e com muita ternura.
FELIZ ANO NOVO!

sábado, 18 de dezembro de 2010

Tititi - Sem perder a ternura jamais



Quando se trata de ficção, pode até não haver regras para o sucesso, mas uma boa história é, com certeza, mais que 90% do caminho.
Fã assumida de telenovelas e de boas histórias, percebo com certa tristeza que não consigo mais assistir determinadas obras porque são só angústia,do princípio ao fim. Como posso passar meses assistindo uma obra que não tenha uma única cena que me faça sorrir?
É aí que Ti-ti-ti ganha pontos no momento atual. A novela é repleta de ternura. Há muito tempo não via cenas com tanta poesia e delicadeza. O texto de Maria Adelaide Amaral & Companhia jamais é constrangedor, mesmo que a situação que o personagem viva na tela o seja. Podemos assistir sem susto, sabendo que vamos nos divertir e que o entretenimento é garantido. Há desde cenas desvairadamente cômicas, como as de Jaqueline até cenas mais sutis, que simplesmente nos arrancam um sorriso inesperado dos lábios, como as que se referem a amizade de Julinho com Marcela e Bruna e a relação de Ari e Marta. Isso, sem contar, o carinho de Suzana e Ary pelo filho Luti, dos irmãos Mabi e Lipe um com o outro, a relação da família Sampaio com os "abrigados" Marcela e Julinho e com as crianças do Hospital, o romance de Edgar e Marcela, Ary dançando com Cecília na clínica ou a "Titia" encantada com o príncipe Luti e a menina Mabi ... os exemplos são inúmeros.
A novela é ainda repleta de citações pop e uma grande e carinhosa homenagem não só a Cassiano Gabus Mendes, como a televisão brasileira. É impossível para quem, como eu, sempre gostou de TV não sorrir ao ver Suzana sendo chamada de "Fera Radical" ou Luti sendo chamado desdenhosamente por Jacques Leclair de "Galãzinho de Malhação". Sem contar, Jaqueline dançando e cantando músicas da Xuxa, em cenas hilárias!
Num mundo com tanta violência, repleto de guerrilhas urbanas, é um alivio poder respirar por alguns minutos com a poesia de Tititi e ter o prazer de assistir uma obra que tem um texto repleto de ternura e atores maravilhosos que lhe dão vida. Tomara que venham mais novelas assim. Para mim, Ti-ti-ti já é a melhor de 2010.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Dica Quente: A história de nós dois

Como todos os meus amigos sabem, sou apaixonada por teatro. Só não frequento mais porque as finanças não permitem. Por isso, sempre fico contente quando chega a época da Promoção "Teatro para Todos", da Associação de Produtores de Teatro do Rio de Janeiro.
Este ano aproveitei para assistir uma peça na qual já estava de olho há tempos: "A história de nós dois", com Alexandra Richter e Marcelo Vale.
Foi um tiro certeiro. A comédia romântica emociona e faz rir na medida certa. Para quem vive ou viveu um relacionamento a dois, é impossível não se identificar com as situações mostradas no palco e é daí que vem a maior parte da graça. Sem contar, que os atores são ótimos!
No fim da peça, Alexandra e Marcelo agradeceram o público, que aplaudia de pé e repetiram o velho pedido do povo de teatro: se gostaram indiquem aos amigos, se não gostaram se calem. Pois bem, vou atender ao pedido dos atores, pois acho que o que é bom deve ser compartilhado. A peça é simplesmente uma delícia. Podem acreditar, não é a toa que está em cartaz a mais de um ano, somente na zona sul do Rio e que o texto de Licia Manzo foi indicado ao Prêmio Shell 2009. Vale a pena conferir.

domingo, 19 de setembro de 2010

Seminário Brasil, Brasis: Telenovela e Literatura

No final de agosto, estive na Academia Brasileira de Letras, no Rio, para assistir ao Seminário Brasil: Brasis. O assunto do dia era "Telenovelas, séries televisivas e literaturas" e a mesa composta por um time de primeira: A repórter do jornal O Dia Regina Ritto, o Doutor em sociologia da informação e Professor da UFRJ, Muniz Sodré, o diretor da Rede Record, Ignácio Coqueiro, o ator José Wilker e os novelistas da Rede Globo, Gilberto Braga e Walcyr Carrasco, com a mediação do escritor Domenico Proença.
Regina Ritto abriu o seminário fazendo uma comparação entre o trabalho do repórter televisivo nos anos 80 - quando iniciou sua carreira – e nos tempos atuais. Ela, que já foi colunista e chefe de Redação das Revistas Contigo! e Manchete e roteirista do Domingão do Faustão e do Vídeo Show, comentou que antigamente era mais fácil conseguir acesso direto aos artistas e matérias exclusivas, já que não era comum a figura dos assessores, tampouco redes sociais e paparazzos. Mas hoje é preciso correr muito atrás de um furo para conseguir a melhor matéria. Sobre telenovelas afirmou que refletem a tendência de sua época desde os anos 70, quando deixaram de lado os dramas cubanos e nacionalizaram-se e que, embora, não sejam literatura, tornaram acessível ao grande público clássicos com que jamais teriam contato se não fosse através da televisão, como por exemplo, Helena e Escrava Isaura, dentre outros. Esta afirmação de Regina, classificada por Domenico como polêmica, de certa forma deu o norte do debate e conduziu o resto da discussão.
Para o Professor Muniz Sodré telenovela é literatura sim, mas, de outro tipo. As mesmas marcas tradicionais da literatura são trabalhadas nas telenovelas, isto é, as condições humanas que a ferrugem do tempo não corrói: o medo, a traição... A narrativa se faz presente nos dois casos, sendo que o romance foi incorporado à escola e as novelas a esfera do consumo. Sodré acredita que há uma semiose entre literatura e teledramaturgia, sendo que a segunda tem mais a ver com a forma do que com o conteúdo. Em sua opinião, o fato de não existir critica literária para telenovelas é o que faz com que se diga que não é literatura, como se a obra precisasse passar pelo crivo desta critica para adquirir tal status. Acha, porém, inútil discussões sobre o que é o artistico no artistico. Ele definiu telenovela como “a narrativa folhetinesca tecnicamente iluminada”, isto é, como a transposição dos antigos folhetins para o meio eletrônico, floreada pelas novas tecnologias. Disse que as telenovelas fazem uso de realidades míticas e do real histórico e exemplificou com o fato de que todas as novelas de fazenda tem algo de Gilberto Freyre e um leve tom de incesto. Para o professor, a novela é um pastiche de outros tipos de narrativas já feitas e isto não é algo negativo. Uma história bem contada tem futuro. A sutileza do texto intervém na forma e vai direto à consciência, seduz o leitor/espectador. Ele falou ainda que determinados textos de teledramaturgia, sobretudo os de comédia tem esta sutileza e citou como exemplo alguns diálogos da atual novela das 19hs da Rede Globo, Ti-ti-ti. Sodré afirmou que entretenimento é sedução e que após meio-século, a novela continua seduzindo o público através do romance, pois o que o público atual quer é o mesmo que queria o leitor dos folhetins do século XVI: divertir-se e entreter-se.
Á seguir foi à vez de Ignácio Coqueiro, que foi bastante breve e preferiu tentar responder a pergunta “Onde a telenovela vai parar?” O diretor acredita que o futuro do gênero é tornar-se interativo, juntar o internauta com o homem que está na rua e assiste no celular e o que está em casa assistindo TV. Acha que é hora de pensar nas novas tecnologias. Ignácio imagina um futuro onde cada um de nós possa seguir cinco ou seis personagens e acompanhar, inclusive, aquelas cenas que sobram e não vão ao ar na TV. Ele acha que chegará a época em que até mesmo jogos serão propostos. Poderá haver uma novela em que o público vai apostar no que vai acontecer e trocar sua pontuação por prêmios. Ainda assim, deixou claro que o público não interferirá no texto, poderá apenas brincar. A responsabilidade da história continuará sendo somente do autor.
Depois, foi a vez de Walcir Carrasco, que retomou o tema telenovela x literatura. Contou que escreveu 35 livros infanto-juvenis e graças a esta sua experiência concluiu que novela pode não ser literatura, mas, dialoga com a literatura. Walcyr revelou que “O cravo e a rosa” foi a novela que mais lhe satisfez e foi toda feita em cima de “A megera domada”, de onde chegou a tirar frases inteiras. Assim como na peça, não existia a figura do vilão, o mote era o embate entre Catarina e Petruchio, os protagonistas. Quando a novela precisou ser esticada, aí sim precisou mexer na obra e criar uma vilã. Ainda assim acha que a novela funcionou porque Shakeaspeare é um autor muito divertido.
Para Walcyr a diferença básica entre o autor literário e o de telenovelas é que o primeiro tem tempo para burilar a sua obra, pode ser mais profundo. Ele disse que a telenovela se alimenta da literatura e do mito e que há personagens que freqüentemente se repetem nas telenovelas, como por exemplo, A Becky, de Feira das Vaidades, romance escrito por William Thackeray em 1.848 e A prima Bete, de Balzac. Citou até a Bíblia para mostrar que as histórias se repetem o tempo todo, só o que muda é a forma de contar. No Gênesis 39, temos a história de José e da mulher de Potifá, que tentou deitar-se com ele e que como foi recusada rasgou suas vestes e acusou-o de tê-la tentado violentar. Ou seja, nos disse Walcyr, no Novo Testamento já havia a mesma vilã que há hoje nas telenovelas.
Para o autor, as telenovelas tem sim uma orientação industrial, mas, tem também um diálogo literário que a supera e os autores com formação cinematográfica e literária tem mais condições de buscar o diálogo como um todo. Walcyr disse que em entrevistas, sempre lhe perguntam se a Globo interfere no andamento da sua obra, mas, que se houvesse alguém na Globo que soubesse o que mudar quando preciso, se ajoelharia aos pés desta pessoa. A responsabilidade recai mesmo somente sobre o autor.
Assim como Coqueiro, ele acha que a telenovela futuramente vai ter que abarcar as novas mídias. Contou que esteve no Japão e viu por lá mini-novelas de 140 caracteres que passam no celular. Acredita que a novela vai mudar sim, mas não sabe ainda como. Logo a seguir foi a vez de Gilberto Braga, que levou a platéia aos risos quando disse que se sente um velhinho ao ouvir Coqueiro e Walcyr falando sobre telenovelas no celular. Fez uma comparação de si mesmo com seu ex-patrão Roberto Marinho, que segundo ele, era um empresário brilhante e acompanhava tudo a sua volta, mas, quando alguém falava de satélites, cochilava, “tirava o time de campo” Gilberto se sente fazendo “parte desta turma”. Deixou claro que não se sente à vontade com novas tecnologias e discordou de Regina e Walcyr. Para ele, telenovela é literatura. Falou sobre as adaptações de obras literárias que já fez e das motivações que teve para cada uma delas. Escolheu Helena para adaptar por se tratar de uma obra do inicio da carreira de Machado de Assis, seu autor preferido, pois não teria coragem de mexer com uma das obras-primas do grande escritor. Já a escolha de “Senhora” de certa forma, deveu-se ao critério contrário. Gilberto disse não ser fanático por José de Alencar, não o acha um autor tão bom quanto Machado, mas dentre os romances deste escritor, Senhora é o seu preferido. Contou ainda que como na época mandaram esticar a história, tomou liberdades que de inicio não pretendia. Já a adaptação de “A Escrava Isaura,” Gilberto contou que foi recomendação de sua ex-professora Eneida (que ele citou mais de uma vez, com carinho, durante sua apresentação). Ele considera o livro mal-escrito, mas, em compensação acha que tem a melhor story-line que já viu, a da escrava desejada pelo seu senhor e que não o quer. Em sua opinião, esta é uma story-line que mexe com qualquer pessoa porque fala do medo. Atribui o sucesso desta novela ao fato de que todos nós temos medo; ele acha que o medo é o sentimento mais forte que o amor e que todos nós temos medo de quem é mais forte. Contou ainda que pediu para assinar “O Primo Basílio”, que acabou sendo uma “adaptação de Gilberto Braga e Leonor Basseres” e disse que vale a pena assistir a obra em DVD porque o texto de Eça de Queiroz parece um roteiro cinematográfico com suspense e força de personagens.
Gilberto concordou com Walcyr sobre a repetição de determinados personagens em telenovelas. Acha Becky Sharp uma ótima personagem e confessou que já pensou em adaptar Feira de Vaidades, mas, desistiu porque não sabe escrever sem maniqueísmo. Precisa saber quem é o mocinho e quem é o vilão, não conseguiria fazer bem uma personagem tão ambígua. Acha que A Prima Bete de Balzac também seria outra boa novela. Lembrou que os sessentistas reescreveram os gregos e utilizavam para isso o termo imitação criadora. Para ele, não vamos achar nenhuma novidade dentro do ser humano, que é o que o atrai. Contou que se esta nesta “brincadeira, ”isto se deve ao interesse que tem pelo humano.
Gilberto terminou lembrando uma de suas personagens mais famosas, Odete Roitman e dando uma dica preciosa para quem pretende se aventurar no ofício das telenovelas: não adianta lançar mão do recurso do “quem matou?” se o personagem não tiver força dramática. No caso de Vale-Tudo, a trama do assassinato durou exatos nove capítulos até o seu desfecho e, no entanto, todos lembram porque Odete era uma personagem forte, por isto o público se interessou em saber quem a matou.
José Wilker encerrou a apresentação, contando que recentemente acompanhou duas telenovelas em Miami cujo plot era “um sujeito queria alguém e alguém o atrapalhava”. Com um humor um pouco sarcástico, arrancou risadas do público em alguns momentos. Disse que a última novela que se lembra de ter acompanhado foi “Nino, o italianinho”, mas, que desistiu ao ver lá pelo capítulo 200, Juca de Oliveira tropeçar na Aracy Balabanian, beijá-la e no capítulo seguinte pedir desculpas.
Wilker disse que resistiu a fazer TV por muito tempo porque a associava a ditadura até que deixou de ser burro (palavras dele) e aceitou o convite do Dias Gomes para fazer novela. Não sabia nada naquela época e perguntou para o diretor: “Como se representa na TV?” tendo recebido como resposta “Não enche o saco, conta até três e faz”. Foi isso que ele fez e, curiosamente, ganhou vários prêmios como ator naquele ano.
O ator contou que viajou muito pelo Brasil fazendo teatro e sentia que o nosso país na verdade eram vários países distantes e separados, mas, agora quando viaja sente que não é mais assim, vê o Brasil como um país inteiro que não vai mais se dividir em 4 e acredita que as novelas tenham contribuído para isso. Apesar disso, acha que a TV está engessada e que estamos sendo presenteados como uma infinidade de meios de comunicação, mas que não são de comunicação na verdade. A mensagem que Wilker quis deixar é de que o grande trabalho de todos nós será o de nos apropriarmos destes novos conhecimentos para torná-los de fato comunicação.